★☾ ✿Gente - Miúda✿

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Era uma vez, uma garotinha que se chamava... Bora ler!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O menino e Ela.

(Autoria: Fernanda)
Imagem:net

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Noite fria, e a menina procurava abrigo, e sem se dar conta encontrou um menino que também se abrigava da noite. Ela aproximou-se meio arredia, mas contente de ter mais alguém ali além dela. Nisto, ao chegar mais perto, parecia ouvir o menino falando com alguma pessoa. Mas quem? Ela não via ninguém por ali além deles. O menino dizia: por que você não me ama? Baixou lentamente a cabeça e olhando o horizonte, ela presenciou lágrimas.
 
Ela - Menino posso ir ficar aí embaixo também?
Ele - Não quero companhia.
Ela - Está bem eu ficarei aqui onde estou, quer conversar?
Ele - Sobre o que?
Ela - Não sei, sobre o que quiser.
Ele - Você, o que faz aqui?
Ela - Estava andando e acabei me afastando de onde costumo dormir, então vi você aí e pensei poder me abrigar aqui além de conversar um pouco.
Ele - Venha.
 
Ela - Ouvi sua conversa, mas acho que você conversava com o Senhor do alto não é?
Ele - Você quer dizer Papai do céu.
Ela - Sim. Mas você dorme aqui?
Ele - Fazia parte de uma turma de meninos lá do lado norte, mas eles começaram a cheirar um troço esquisito e depois ficam mais esquisitos ainda. Me deram e eu não quis, então me bateram e queriam me atirar no mar. Fugi e vim parar aqui. E você?
Ela - Eu fugi de um lugar onde guardavam crianças para depois vir um adulto que gostasse de criança levar para ser sua mãe e pai.
Ele - E porque fugiu de lá? Não queria ter um pai e uma mãe?
Ela - Quero! Mas esperava os meus verdadeiros pais, se outra pessoa me levasse como poderiam eles me achar?
 
Ele - E ninguém quis você?
Ela - Eu me escondia sempre, e no lugar iam meus amiguinhos, eles precisavam mais que eu.
Ele - E como veio parar aqui?
Ela - Fugi de lá numa noite de natal e não voltei mais.
Ele - E como sobrevive aqui fora?
Ela - Tenho amigos na praia, ah e também estudo numa escola da favela.
Ele - Então sabe ler e escrever?
Ela - Sei sim.
Ele - Pode escrever uma carta para minha avó qualquer dia destes?
Ela - Posso, quando quiser.
Ela - Agora que viramos amigos, por que perguntava se alguém não te amava? Era mesmo o papai do céu como diz?
Ele - Não iria querer saber a verdade.
Ela - Tente então.
 
Ele - É que depois de apanhar de meu padrasto e de minha mãe, eu decidi ir embora de casa, mesmo tendo a minha avó que sempre me defendeu. Não gostava de viver daquela forma, drogas e bebidas, e nenhuma condição saudável.
Ela - Mas e sua avó? Por que não ficou com ela?
Ele - Minha avó está doente e não podia cuidar de nós dois, mas eu prometi para ela que mandava notícias. E agora mesmo estava conversando com o Senhor do alto como você diz.
Ela - Pode me dizer como se chama?
Ele - Edilson.
Ela- Edilson, então não sabe o que o Senhor do alto, Papai do céu, ele sempre nos amará?
 
Ele - E por que nós dois, duas crianças que deveriam estar sendo cuidadas por pessoas que nos amassem, estamos aqui jogados no meio do frio e com fome?
 
Ela - Ainda não tenho a resposta, mas posso te garantir que estamos sendo cuidados e amados. E não estamos jogados, veja, fizemos amizade e estamos conversando de nossas vidas. O padre lá da igreja que guardo meus cadernos, me disse uma vez que, nós temos sempre dois caminhos a seguir. E eu perguntei a ele onde o Senhor do alto mais se orgulharia que seguíssemos, e ele me disse que é no caminho mais precário. Nem sempre encontramos o amor na facilidade Edilson, mas saiba que se a lealdade e a fé fizer parte de nossas vidas, teremos muitas vitórias, porque o amor abre todas as portas. Você pode duvidar do que quiser, mas nunca duvide do amor de Deus por nós.
 
Ele - Você acredita mesmo hem?
Ela - Sim, de toda minha alma.
 



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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Foi ser liberdade

(Autoria: Fernanda)
Imagem: net
 



Senhora, por que está chorando?
O que aconteceu? Pode por favor, me contar?
A senhora a olhou de cima abaixo e num tom severo disse, devolva meu anel. Diga menina! Onde você o escondeu?

A menina não sabia onde estava a jóia. Olhou para a senhora, e com os olhos marejados disse: Não vi seu anel senhora. Num ímpeto sentiu numa das faces o peso das mãos que aprendera a conhecer tão bem, a lhe por de castigo. A senhora a levou até o quarto escuro e lá ela ficou o dia inteiro.


No finalzinho da noite a porta se abriu e a menina saiu com os olhos doendo da iluminação forte neles. Fora-lhe permitido um banho. Foi, se banhou e voltou para a ala das meninas, tudo em silêncio. O jantar estava servido, e lhe dado um copo de água, ela agradeceu, tomou e pediu para se retirar. Seu pedido fora negado e ela ficou sentindo o cheiro do caldo que estava sendo servido à mesa. Engolia a saliva e fechava os olhos.

Final do jantar, quando era tirada a mesa, foi anunciada uma visita. A ajudante do orfanato diz: Dona Maura sua prima a espera. Mande que entre, não posso deixar essas crianças sozinhas aqui.

A moça entra, se abraçam, conversam enquanto as crianças lavavam os pratos.
A que devo a honra de tua visita? Prima, liguei para ti o dia inteiro, minha formatura foi muito bonita, pena não teres ido. A senhora Maura se desculpou pelos afazeres não tê-la permitido ir, e em seguida a moça tira do dedo o anel lhe devolve e agradece. Obrigada querida por tê-lo emprestado a mim.

Todos se voltaram para a senhora Maura com um tom de revolta, menos a menina, que feliz da vida ficou, por saber que a senhora agora sabia que ela falava a verdade. A senhora meio sem jeito apenas, batia as mãos e dizia: Todos já para a cama, cuida!

Naquela noite a menina recebera o carinho de seus amiguinhos. E da janela de seu “quarto” pensava: Um dia eu vou admirar as estrelas bem na frente do mar, dormir junto com a brisa e ver o sol nascer todo lindo, bem diante dos meus olhos.

Um dia amenina escapou, foi ser liberdade.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Prece

(Autoria: Fernanda)
imagem net
 


A menina levava a sério todas as coisas que precisassem de seriedade.
Ela amava a liberdade que tinha com a mãe natureza.
Passeava por canteiros de flores e sorria, sentia-se em casa. Molhava as mãos pequeninas nas ondas faceiras do mar, e fazia o sinal da cruz, em tom de agradecimento.

Passava horas fitando o horizonte e namorando o céu. Muitas vezes via-se em seus olhos as lágrimas caminharem para o chão.
Certa vez encontrou senhor Ivo, homem bom e já de idade.
Ele semelhava o Pai Noel e muitas vezes lhe matou a fome. Ela tatuou sua bondade, onde tatuava os que passavam a morar por dentro dela.

Um dia senhor Ivo foi morar no céu, por não ter alguém para tomar conta dele quando ficou doente. Isso era o que ela escutara de uma vizinha dele e guardou na memória.
Saiu dali, com um rio fluindo dos olhos e voltou para a beira mar, onde o conhecera.

Olhou para o céu e na tentativa pura de uma criança, pediu ao alto num tom de prece.
Senhor do alto, sou eu a tua filha da terra.
Venho te pedir que cuide aí em cima do senhor Ivo.
Eu não sabia que ele precisava de ajuda. Se eu soubesse, teria pedido ao Senhor para me ensinar a cuidar dele do jeito certo.
Ele sabia cuidar, e eu deveria ter aprendido com ele. Assim eu teria cuidado dele tão certinho, e ele teria ficado aqui mesmo na terra.
Senhor do alto, você pode me ensinar a cuidar das pessoas, para que elas fiquem sempre bem? Se deixar eu quero cuidar dos velhinhos e um dia quando crescer, das crianças e de todas as pessoas que precisarem de mim.

Escuta Senhor, se o Senhor aceitar eu vou me esforçar para ser uma boa “cuidadora” viu? Vá pensando... Por agora eu queria saber se ele ficou triste ou feliz, de ter ido morar aí em cima. Pode, por favor, me fazer sonhar e saber?
Pode também dizer para ele, que eu disse para uma senhora, aquela que caminha de calça de bolinha e blusa branca, que ele era meu vozinho querido? É que eu ia perguntar dele naquele dia, se ele podia ser meu vozinho do coração, mas quando eu cheguei lá, ele já tinha dormido.

Diz para ele que eu fiquei marrenta com o SONO, porque ele levou meu vozinho. Mas o padre me disse que o Senhor o chamou, porque estava precisando muito dele por aí. Então está tudo bem agora, a minha cara já não está mais de brava tá? Desculpa.

Diz para ele que eu vou estudar lá pros lados de Niterói, mas só se dona Luiza conseguir uma vaga para mim por lá. Se não fico lá na favela mesmo.
Que o Peter vai estudar comigo, mas prometeu ficar bem quietinho quando eu estiver ocupada.

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